Em fevereiro de 2024, o choro – gênero musical brasileiro – foi oficialmente declarado Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil pelo Iphan, um marco importante de reconhecimento para um gênero que está na base da formação da nossa configuração musical e cultural como povo. O reconhecimento histórico consolida uma tradição centenária que vai muito além de um simples estilo: é uma expressão viva da cultura brasileira. Considero o choro uma expressão dinâmica e pulsante da nossa musicalidade, já que fui sugado para esse universo principalmente a partir de 2019, e vejo amigos e jovens não só tocando mas também compondo, recriando o choro.
Mais do que uma condecoração, a titulação, faz justiça a um gênero fundamental, estruturante da canção do Brasil, ainda que fundamentalmente instrumental. Para mergulhar nesse universo, é preciso conhecer suas obras fundamentais. Esta lista reúne 70 choros essenciais que todo estudante de música, admirador da cultura nacional ou instrumentista que deseja dominar o assunto precisa conhecer. Como sou violonista, é claro que você pode argumentar que alguns deles podem estar mais inclinados ao violão.
A trajetória do choro, documentada pela USP, é marcada por rodas de samba, afeto e uma complexidade rítmica e harmônica que tem origem eurocidental, mas só se desenvolveram aqui, nesse imbricamento cultural. Dominar esse repertório não é apenas uma técnica, mas uma imersão na história do Brasil. Considero o choro vivo por que justamente entendo a necessidade de enxergá-lo como vivo. Faço os paralelos aqui com a linguagem: assim que um povo deixa de falar uma determinada língua, ela morre. O latim, distante dos dialetos, guardado e conservado ao longo dos séculos acabou morrendo. Por isso, é preciso considerar essa metáfora talvez um pouco simplista para falar de uma prática musical, como uma vivência do dia a dia e em seus paralelos com a linguagem, não como canal de comunicação, mas como sistema simbólico e gerador de vida. Por isso, se ninguém fala ela não existe mais. E principalmente, se ela não é dinâmica e mutante, viva na boca das pessoas, ela morre em conservação. Se quer preservar um gênero musical, deixe o livre pra ser solto, disrruptivo, contraditório, mas sem se desconectar de sua memória, nao de memória como uma tradição que aprisiona e amarra, mas como patrimônio ao qual possamos sempre nos voltar. Como músicos, estamos sempre amparados nos ombros de gigantes.
Viva o choro que se reiventa a cada dia, que não é tocado mais como era há 150 anos e espero que nunca seja. É uma música nossa, viva e em movimento. Para celebrar o choro, fiz uma lista do que considero os 70 choros mais essenciais que estão por aí firmes e fortes nas rodas de boteco pelo Brasil todo, e continuará em 2026. Cada composição abaixo é uma peça desse mosaico.
A Lista dos 70 Choros Essenciais
Mais do que uma lista, as músicas abaixo estão no cerne do que a gente entende por música brasileira até hoje, mesmo aparentemente desconectadas, acredite, elas são o mapa para entender a musicalidade brasileira de forma ampla.
- Apanhei-te Cavaquinho – Ernesto Nazareth e Hubaldo
- Assanhado – Jacob do Bandolim
- Benzinho – Jacob do Bandolim
- Carinhoso – Pixinguinha e João de Barro
- Atlântico – Ernesto Nazareth
- Cochichando – Pixinguinha, João de Barro e Alberto Ribeiro
- Conversa de Botequim – Noel Rosa e Vadico
- Dengoso – Jonas Silva
- Chorinho na Gafieira – Astor Silva
- Desvairada – Garoto
- Diabinho Maluco – Jacob do Bandolim
- Doce de Coco – Jacob do Bandolim
- Dr. Sabe Tudo – Dilermando Reis
- Espinha de Bacalhau – Severino Araújo
- Eu quero é Sossego – K-Ximbinho e Hianto de Almeida
- Flor Amorosa – Catulo da Paixão Cearense e Joaquim Callado
- Garoto – Antônio Carlos Jobim
- Radamés Y Pelé – Antônio Carlos Jobim
- Chega de Saudade – Antônio Carlos Jobim
- Falando de Amor – Antônio Carlos Jobim
- Graúna – João Pernambuco e Turibio Santos
- Murmurando – Fon fon e Mario Rossi
- O Bom filho à casa torna – Bonfiglio de Oliveira
- Odeon – Ernesto Nazareth e Hubaldo
- Receita de Samba – Jacob do Bandolim
- Rosa – Pixinguinha
- Santa Morena – Jacob do Bandolim
- Sarau para Radamés – Paulinho da Viola
- Se ela perguntar – Dilermando Reis
- Sensível – Pixinguinha
- Sons de Carrilhões – João Pernambuco
- Tempo de Criança – Dilermando Reis
- Um Chorinho pra você – Severino Araújo
- Vibrações – Jacob do Bandolim
- Abismo de Rosas – Canhoto
- Amphibious – Moacyr Santos
- Brasileirinho – Waldyr Azevedo
- Carioquinha – Waldyr Azevedo
- Cheguei – Pixinguinha e Benedito Lacerda
- Chorinho para ele – Hermeto Pascoal
- Chorinho pra Você – Severino Araújo
- Choro Negro – Paulinho da Viola e Fernando Costa
- Cuidado Violão – José Toledo
- Delicado – Waldyr Azevedo
- Feia – Jacob do Bandolim
- Homenagem a Velha Guarda – Sivuca e Paulo César Pinheiro
- Lamentos – Pixinguinha e Vinícius de Moraes
- Na Glória – Ary Santos e Raul de Barros
- Noites Cariocas – Jacob do Bandolim
- Pedacinhos do Céu – Waldyr Azevedo
- Proezas de Sólon – Pixinguinha e Benedito Lacerda
- Sofres Por que queres – Pixinguinha e Benedito Lacerda
- Sonoroso – K-Ximbinho e Del Loro
- Aeroporto do Galeão – Altamiro Carrilho
- André de Sapato novo – André Victor Correia
- Brejeiro – Ernesto Nazareth
- Carioquinhas no Choro – Altamiro Carrilho
- Chorando Baixinho – Abel Ferreira
- Choro Pro Zé – Guinga e Aldir Blanc
- Choro nº01 – Heitor Villa Lobos
- Gaúcho – Chiquinha Gonzaga
- Ingênuo – Pixinguinha e Benedito Lacerda
- Magoado – Dilermando Reis
- Naquele Tempo – Pixinguinha e Benedito Lacerda
- Saxofone, Por que Choras – Ratinho
- Ternura – K-Ximbinho
- Tico Tico no Fubá – Zequinha Abreu
- Um a Zero – Pixinguinha e Benedito Lacerda
- Vê se Gostas – Waldyr Azevedo
- Vou Vivendo – Pixinguinha e Benedito Lacerda
Brasil toca Choro
Em 2019, a TV Cultura, canal financiado pela Fundação Padre Anchieta, lançou uma série de vídeos e entrevistas com performances e falas dos maiores músicos do gênero no país hoje. Essa série é indispensável na minha visão, para entender o gênero e como não se trata apenas de uma música do passado, mas por exemplo de gente que tá ganhando o Grammy hoje com álbuns com essas influências (Melhor Álbum de Jazz Latino), como é o caso de Hamilton de Holanda e tantos outros nomes. É uma tristeza, mas o Brasil desconhece, e às vezes despreza mesmo os seus talentos. Fica abaixo a dica pra você assistir:
A jornada para dominar não só o violão, o bandolim, o cavaquinho ou qualquer instrumento da formação de regional, passa inevitavelmente, por aqui.
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