10 Violonistas Brasileiros que Você Precisa Conhecer

Introdução

O violão brasileiro é um universo de sonoridades e diferentes escolas que vão muito além do samba e da bossa nova. De composições clássicas a arranjos contemporâneos cheios de identidade, o país é um celeiro de talentos que encantam o mundo e que sempre se reinventa. Preparei uma lista com 10 nomes essenciais — dos grandes mestres do passado a alguns mais atuais — para você mergulhar na sonoridade única desse instrumento que se confunde com a identidade Brasileira tanto quanto o futebol. Boa leitura e ótima audição!

10.Dilermando Reis (1916-1977)

Natural de Guaratinguetá, São Paulo, Dilermando Reis foi um dos violonistas mais influentes do país. Ele foi um dos violonistas de maior sucesso comercial na história da música brasileira, destacando-se especialmente na gravadora Continental. É comum que a imprensa especializada se refira a ele como o violonista que mais vendeu discos no Brasil: ele gravou cerca de 40 discos de 78 RPM e aproximadamente 30 LP’s. Mesmo década de 1950, era comum que seus lançamentos atingissem rapidamente a marca de 50.000 cópias, um número gigante para música instrumental na época. Conhecido por suas composições e interpretações inesquecíveis de choros e valsas, sua técnica apurada e estilo melodioso contribuíram para popularizar o violão como instrumento solista no Brasil. Sua obra serve como referência e muitas vezes como introdução ao violão solista brasileiro até hoje.

09.João Pernambuco (1883–1947)

Natural de Jatobá (PE), João Pernambuco foi um gênio autodidata que operou uma verdadeira revolução silenciosa na música brasileira. Enquanto a elite carioca do início do século XX olhava para a Europa, João trouxe o diálogo com as expressões musicais do sertão — o xaxado, o coco — para as cordas do violão de nylon, fundindo a rítmica nordestina com a malandragem do choro carioca.

Integrante fundamental do lendário grupo “Oito Batutas”, ao lado de Pixinguinha, João Pernambuco é considerado um dos pilares da fundação da identidade musical do violão e do Brasil. Sua técnica inovadora utilizava o violão não apenas como acompanhamento, mas como um instrumento solista capaz de traduzir a complexidade da cultura popular.

Sua obra-prima e talvez mais conhecida, “Sons de Carrilhões”, ultrapassou as fronteiras do regionalismo para se tornar uma peça obrigatória no repertório de qualquer violonista erudito ou popular ao redor do mundo. João foi um mestre que ensinou o Brasil a tocar a própria terra, transformando a simplicidade das melodias do povo em peças violonísticas.

08.Dino 7 Cordas (1918-2006)

Horondino José da Silva, o lendário carioca Dino 7 Cordas, é a figura central que redefiniu o papel do violão na música popular brasileira. Se João Pernambuco consolidou o violão solista, Dino revolucionou o acompanhamento. Ao apresentar o violão de sete cordas de aço, com uma sétima corda afinada em Dó ou Si, ele ampliou as possibilidades harmônicas e criou a linguagem das “baixarias” — aquelas frases melódicas nos bordões (cordas graves) que dialogam com a melodia principal e o centro do regional. A linguagem contrapontística de melodia contra melodia desenvolvida pelo Dino pode ser comparada em termos materiais com a forme de ornamentação do barroco. Depois do Dino, esses contrapontos se complexificaram para além de notas guia de cabeça de compasso por exemplo.

A precisão rítmica e criatividade do Dino fizeram dele o músico de estúdio mais requisitado do Brasil entre as décadas de 1950 e 1990. Dino não apenas acompanhou nomes como Cartola, Nelson Cavaquinho, Elizeth Cardoso e Raphael Rabello, mas fez escola com a sonoridade do choro e do samba a partir de seu violão. Ele transformou o acompanhamento em uma forma de arte tão sofisticada quanto o próprio solo, estabelecendo um padrão técnico que hoje é o fundamento de qualquer violonista de sete cordas no mundo.

07.Marco Pereira (1956- )

Natural de São Paulo e dono de uma formação acadêmica impecável — incluindo um mestrado na prestigiada Université Musicale Internationale de Paris —, Marco Pereira é o expoente máximo do violão que transita, sem fronteiras, entre o erudito e o popular. Sua técnica é marcada por uma clareza cristalina, enquanto suas harmonias revelam uma profundidade que bebe tanto do impressionismo europeu quanto do balanço do samba, do choro e do baião do Brasa.

Como compositor e arranjador, Marco Pereira elevou o violão brasileiro a novos patamares de refinamento, criando obras que hoje são peças fundamentais de concerto. Sua contribuição vai além dos palcos: ele é um dos maiores educadores musicais do país, professor adjunto no Departamento de Composição da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tendo sistematizado o ensino da harmonia e dos ritmos brasileiros de forma inédita – Obra didática incontornável pra quem quer estudar violão como gente grande. Ao ouvir Marco Pereira, percebe-se um mestre que não apenas toca o instrumento, mas que redesenha a geografia sonora do Brasil através de arranjos que são, por si só, verdadeiras lições de composição.

6.Garoto (1915-1955)

Aníbal Augusto Sardinha, imortalizado pelo apelido Garoto, foi provavelmente o músico mais à frente de seu tempo na história da música brasileira. “Avô” da sonoridade harmônica mais jazzística do que depois viria a se tornar a bossa nova, ele foi Multi-instrumentista e virtuoso. Garoto ressignificou o violão deslocando do papel de simples acompanhante e o inseriu em um universo de harmonias dissonantes e progressões audaciosas, que mais tarde serviriam de alicerce para a Bossa Nova, o Samba Jazz e a modernização da música instrumental brasileira.

Sua obra é o ponto de encontro entre o choro tradicional e a modernidade do jazz. Composições como “Gente Humilde”, “Lamentos do Morro” e “Duas Contas” revelam uma sensibilidade melódica profunda combinada a um vocabulário harmônico que desafiava os padrões da década de 1940 e 1950. Garoto não apenas tocava; ele expandia os limites físicos e sonoros do instrumento, sendo um dos pioneiros do uso do violão de dez cordas e da guitarra elétrica no Brasil. Sua morte precoce, aos 39 anos, interrompeu uma das carreiras mais brilhantes da música mundial, mas seu legado permanece vivo como a principal fonte de inspiração para nomes como Baden Powell e Tom Jobim mais tarde. Outro incontornável pra quem quer entender o violão brasileiro em um outro nível.

05.Paulo Belinati (1950- )

Dono de uma musicalidade refinada e de um profundo respeito pelas raízes brasileiras, Paulo Bellinati é uma das figuras mais completas do violão atual. Sua importância para a música brasileira é dupla: como compositor, ele criou obras contemporâneas que já se tornaram clássicos — como o icônico “Jongo” — e, como pesquisador, foi o responsável por resgatar e transcrever a obra perdida de Garoto, devolvendo ao Brasil um de seus maiores tesouros musicais.

Bellinati transita com naturalidade absoluta entre o violão erudito de concerto e o violão popular de raiz. Seu som é marcado por um uso magistral dos timbres e por arranjos que exploram ritmos folclóricos com uma roupagem harmônica sofisticada e técnica impecável. Seja atuando como solista, em duo ou com Marco Pereira, Paulo Bellinati representa a excelência de um músico que não apenas preserva a memória do instrumento, mas continua por décadas escrevendo novos capítulos para o violão.

04.Yamandu Costa (1980- )

Natural de Passo Fundo (RS), Yamandu Costa é considerado um dos maiores fenômenos do violão mundial na atualidade. Sua trajetória é marcada por uma simbiose perfeita entre a música erudita e as raízes populares da América Latina. Tocando o violão de sete cordas de nylon, Yamandu renovou a linguagem do instrumento, trazendo para o centro do palco ritmos como a milonga, o chamamé, o choro e o samba, sempre com uma virtuosidade técnica que beira o impossível e uma entrega emocional visceral.

Sua importância vai além da velocidade e do domínio mecânico; ele é um pesquisador da sonoridade latino-americana, integrando elementos da música brasileira, argentina e uruguaia em um estilo absolutamente autoral, ligado a sua origem. Vencedor de diversos prêmios internacionais, incluindo o Grammy Latino, Yamandu Costa é hoje o maior embaixador da cultura gaúcha e brasileira nas salas de concerto mais prestigiadas do globo, provando que o violão e o sete cordas é um universo vasto e sempre pode ser empurrado para outras fronteiras.

03.Baden Powell (1937-2000)

Pessoalmente, digo que Baden não é só um cara importante para o violão. Afrosambas mudou minha vida, e quando a música muda nossa vida, ela abre um portal para outras sensibilidades, outros universos de existência. Baden Powell de Aquino foi o responsável por uma das sínteses mais poderosas da nossa música: o encontro do violão clássico com o terreiro. Sua técnica era assombrosa, combinando uma mão direita de força percussiva inigualável com uma harmonia moderna e sofisticada. Baden elevou o violão a um patamar espiritual, especialmente através do álbum “Afro-Sambas”, composto em parceria com Vinícius de Moraes, onde transpôs a rítmica dos orixás para as seis cordas de nylon.

Baden não foi apenas mais um virtuoso, ele foi um inovador estilístico que influenciou gerações de músicos na Europa e no Japão por exemplo. Sua capacidade de improvisação beirava o transe, e sua sonoridade — muitas vezes seca e agressiva, outras vezes doce e lírica — tornou-se a assinatura de um Brasil profundo e cosmopolita ao mesmo tempo, uma música que espiritualiza mesmo quem não acredita mais no mágico. Ele não apenas tocava o instrumento; ele o dominava fisicamente, transformando cada apresentação em um ritual de precisão rítmica e sensibilidade transcendente.

02.Guinga (1962- )

Carioca da Leopoldina, Guinga é amplamente reconhecido como um dos maiores compositores da história da música brasileira, comparado por críticos e pares a figuras como Villa-Lobos e Tom Jobim. Sua música é um labirinto de sofisticação: ele funde o choro, o samba, o frevo e o baião a uma linguagem harmônica impressionista e moderna, criando sonoridades que são, ao mesmo tempo, profundamente brasileiras mas sem fronteiras.

Embora tenha exercido a profissão de dentista por décadas, sua dedicação ao violão produziu uma obra de beleza densa e complexa. Guinga não se limita ao virtuosismo gratuito; cada nota e cada modulação em seu violão servem à narrativa da composição e da sensibilidade. Suas peças são conhecidas pelo alto grau de dificuldade técnica e pela riqueza melódica, tendo sido gravadas por nomes como Elis Regina, Michel Legrand e Esperanza Spalding. Ouvir Guinga é mergulhar em um Brasil de memória, sonho e possibilidades, contornado por um violão que não aceita clichês.

01.Raphael Rabello (1962-1995)

Mais um precoce: se existe um nome que representa o ápice técnico do violão brasileiro, esse nome é Raphael Rabello. Considerado um prodígio desde a infância, Raphael não apenas dominou o violão de sete cordas, mas o elevou ao status de instrumento solista de concerto. Herdeiro direto da escola de Dino 7 Cordas, ele levou as “baixarias” do samba e do choro a um nível de velocidade, clareza e complexidade harmônica que transformou a percepção mundial sobre o violão brasileiro.

A trajetória de Raphael foi marcada por uma intensidade avassaladora. Sua mão direita possuía uma precisão cirúrgica e uma força que preenchia qualquer ambiente, enquanto sua sensibilidade permitia interpretações pungentes de obras de mestres como Dilermando Reis e Radamés Gnattali. Embora sua carreira tenha sido tragicamente curta, Raphael Rabello deixou um legado que ainda é o padrão ouro para todos os violonistas que o sucederam. Ele foi, em essência, o músico que provou que o violão de sete cordas pode convergir toda a alma e a orquestração do Brasil, em síntese nas sete cordas.

Conclusão

Toda lista de internet é click bait, e toda generalização é injusta. É claro que diversas pessoas ficaram de fora dessa lista, inclusive mulheres importantes, gente do interior do Brasil profundo, e mais violonistas contemporâneos. De qualquer forma, esses músicos não apenas transformaram o violão brasileiro, mas também deixaram um legado duradouro que continua a influenciar novas gerações de artistas, assegurando que a rica tradição musical do Brasil permaneça vibrante e em constante evolução.

Referências

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